A incoerência é uma das características que mais deploro no género humano. Portugal, infelizmente, já nos habituou à sua falta de coerência constante, não só a nível político como também social, jurídico e por aí além. Desta vez, a bactéria contaminou o desporto. Neste momento, a quatro metros de mim, uma televisão transmite imagens de um autocarro transportando vinte e três jogadores de futebol, que chega ao Estádio Nacional, com o objectivo de serem heróicamente aplaudidos pelos feitos conseguidos. Quase parece Camões. Mas não é. Felizmente para ele e para aqueles que, como eu, não se deixam levar por esta euforia desmesurada e despropositada que contorna, a traços de inexplicabilidade, a prestação da Selecção no Mundial. Não deveria espantar-me com estas imagens. Pelo contrário: deveria ter-me habituado a isso. Afinal, vivo neste país desde que nasci. Sejamos francos e coerentes. A multidão, tresloucada por essa Creutzfelt-Jacob que é a Selecção Nacional, enche as ruas, festejando efusivamente. O quê? Um quarto lugar. Ou, como gostam de vociferar os acríticos, o facto de estarmos entre as quatro melhores selecção do mundo. Realmente, a estrutura da oração pode alterar, por completo, a verdade das coisas.
Mas pronunciava-me eu sobre a coerência. Onde é que não fomos coerentes? Nos objectivos e, depois disso, nestes festejos. Que ninguém se iluda: depois da vitória sobre a Inglaterra, noventa por cento deste país achou que Portugal iria à final. E, arrisco-me a dizê-lo, cerca de metade pôs a hipótese de sermos campeões do Mundo. A França era vista, com alguma legitimidade, confesse-se, como um alvo coxo a quem bastava apontar a caçadeira. De preferência, à queima-roupa. Nesse momento, passámos do "melhor possível" para "Campeões Mundiais" e as emoções elevaram-se, em flecha. Sucedeu que, afinal, os coxos não eram assim tão coxos e levaram de vencida a Selecção de "todos nós". Resultado? Fim do sonho. Pouco importou, então. Tínhamos alcançado o terceiro lugar. Sim, porque a história iria repetir-se. E, de facto, repetiu-se. A Alemanha, historicamente uma selecção muito mais forte, pôs Portugal na ordem, com dois grandes golos de Schweinsteiger. Pobre Ricardo! Como escrevia um imaginativo jornalista de O Jogo ou do Record, devemos culpar a Teamgeist. Ou seja, vamos culpar a bola. Primeiro, por ser redonda. Depois, por nunca entrar na baliza adversária, sobretudo depois de já ter entrado, várias vezes, na nossa. Terceiro e último argumento, por não parar exactamente à frente dos pés dos nossos jogadores que, fazendo uso duma apuradíssima capacidade de finalização, chutariam o queij... perdão, a bola, para o fundo das redes.
La Fontaine já o tinha escrito, na conhecida fábula da raposa. Ainda assim, a Nação portuguesa conseguiu alterar-lhe a história. Desta vez, a raposa também viu as uvas maduras, também as desejou ardentemente, mas como só chegava às verdes, deliciava-se com aquele sabor ácido e totalmente desprovido de açúcar de uvas que, claramente, não estavam prontas para a deglutição. Esta é a incoerência. Portugal conseguiu, finalmente, desejar o ponto mais alto. Falhou sem apelo nem agravo como, aliás, é seu apanágio. De imediato, veio o prémio de consolação, o "primeiro dos últimos" e os festejos de um quarto lugar, alcançado por uma selecção "fantástica". Não brinquem com a minha inteligência, por favor. Uma selecção fantástica? Ficaram em quarto. São uma das quatro melhores selecções do mundo, mais precisamente, a quarta. A última! Será que ninguém percebe que festejar uma barbaridade deste género demonstra exactamente a falta de ambição e de confiança de que padece o país? Elogiar vinte e três energúmenos por fazerem mal o seu trabalho? Ganhassem eles um bocadinho menos e seriam perfeitos para a função pública. Pelo meio, elogia-se Scolari, que, com o devido respeito, tem de ficar muito caladinho depois do golo de Nuno Gomes. Quem é Luis Felipe Scolari? Para quem se esqueceu, é o mesmo que esteve à beira de assinar um contrato para ir treinar a Inglaterra depois do Mundial.
Big Phil, remember? O mesmo que não soube motivar os seus jogadores para jogarem de cabeça erguida contra a França. O mesmo que insiste em "fezadas" e em Santas ao invés de se basear nos factos, que estão mesmo à frente do seu nariz brasileiro. Parabéns, Scolari. Parabéns, Selecção. Ficaram em último lugar dos que interessavam. Viva a mediocridade! Viva! E venha o hino. Decididamente, neste país deveria trabalhar-se aos fins-de-semana.
Figo foi-se. Pauleta, felizmente, também. No entanto, nada nos assegura que Scolari, seguindo uma das suas habituais "fezadas", não o convença a ficar mais dois anos, até ao Europeu. Pode ser que aí, quando Pauleta andar de bengala em campo, Big Phil se aperceba dos disparates que fez.
Sendo populista e demagogo: será que os Paralimpicos não merecem ainda mais do que isto? Afinal, eles sempre conseguem PRIMEIROS LUGARES. Ou, pelo menos, LUGARES NO PÓDIO. Vocês sabem quem eles são. No entanto, nunca lá viram o Primeiro Ministro, pois não? Ou o Presidente da República. E estes atletas foram (e são-no constantemente) primeiros. Tal como os vencedores de medalhas em atletismo. Ou como os atletas que vão aos Olímpicos. É uma falta de coerência absurda, não concordam? Nós louvamos, não os que ganham, não os que merecem, mas os populares e, acima de tudo, os populistas. Mérito? Qual mérito? Isso não interessa a ninguém. Importa é que eles sejam musculados, burros e ganhem milhões. Essas características são suficientes para povoar o imaginário da populaça que os venera. Sinceramente, ser português, por vezes, nauseia-me.