Regressado de Inglaterra, depois de uma semana de cultivo intelectual extremo, não sei bem o que pensar. O Benfica, parece-me, está em frangalhos. Fanã acumula derrotas patéticas com equipas patéticas. Primeiro o Sporting. Agora o AEK de Atenas, esse colosso grego. Devo importar-me? A resposta tarda. Parte de mim preocupa-se com o estado da dita "Nação". A outra parte, alheada devido às recentes práticas agrícolas, não se poderia estar mais nas tintas. É certo que o Benfica, o SLB, o Glorioso ainda possui algum do seu efeito efervescente, mas será que é suficiente? Como escrevi noutro post, para quê ajudara uma equipa que, claramente, não quer ser ajudada? Ou um treinador de palas apertadas, incapaz de ver até o que está à sua frente?
Muita água vai correndo debaixo de algumas pontes. No caso do Benfica, parece ser até um bem escasso. Diz-se que os jogadores pediram a mudança táctica. Se é verdade, ou não, não sei. Certo é que Fanã mudou. Para melhor? Yet to be seen. As tácticas alternam-se. Os jogadores, pelos vistos, também. Simão sai ou não? Ninguém sabe. Até ver, não saiu porque fez birra. Nos países civilizados é assim. Desportista ou não, os impostos são iguais para toda a gente, o que só permite saborear uma noção de justiça há muito alheada do futebol português. A donzela lusa teme pagar 40% de impostos? É um ultraje! Significa isso que os espanhóis, esses traidores de primeira, esperam que o pobre rapaz viva apenas com 22 mil contos (cerca de 100 mil euros na moeda actual) por mês? Impossível! A inflacção está altíssima e o rapaz tem uma carreira de curta duracção. Claro que as gorjetas, enfim, aqueles mil euros sempre que marcar um golito ou fizer uma assistência, pagam o pão que a boca come, mas sejamos sérios: com tão pouco, o petiz até poderia morrer de fome. Como não lhe fizeram a óbvia vontade, amarrou o burro, o que, para leigos, significa que Fanã se encontra, neste momento, preso por uma corda no quintal da pequeníssima casa de Simão em Cascais. Oxalá a erva seja verde e ele se engasgue com ela.
Quero preocupar-me mais com outras coisas. Já dei, parece-me, demasiado de mim ao futebol. Emociono-me, é certo. Vivo as vitórias e as derrotas como quem vive um ataque cardíaco: com fatalidade. Aperta-se o peito quando ganho, em sinal de festejo. Aperta-me o peito quando perco, em sinal de frustração e infelicidade. Sejamos realistas. O futebol, o português, pelo menos, não vale o tempo que perdemos com ele. Como gostam de referir as iluminárias cá da praça, não é mais que uma alienação. Agradável, é certo. Mas só quando o Benfica ganha. E, de preferência, quando o Porto e o Sporting não. Ainda assim, pergunto-me se não chegou ao fim. Venho desencantado. Vi coisas que jamais imaginei, paisagens a perder de vista, conheci pessoas fantásticas, futuros líderes, certamente. Discutimos o comércio justo, o conflito israelo-árabe, a questão da nacionalidade, enfim, uma panóplia de assuntos que me satisfizeram o espírito. E, de repente, vejo-me regressado à pátria, que de pátria só tem mesmo o T que algum parvalhão se lembrou de acrescentar. Melancolia? Alguma. Sobretudo quando penso no Benfica.
Dir-me-ão que sou um mau adepto. Não apoio a equipa quando ela está em clara rota descendente. Antes poderia até aceder ao argumento. Hoje é-me mais difícil fazê-lo. Se critico a equipa quando perde, é porque tenho a legitimidade de quem paga as quotas e de quem, num momento estupidamente irreflectido, gastou alguns (poucos) euros em acções. Se a equipa joga mal, tenho o direito absoluto de a assobiar, de me desgastar com ela, de a obrigar a jogar decentemente. Para todos os efeitos, qualquer um daqueles analfabetos compulsivos trabalha para mim. Ganham mais do que eu, é certo, mas, até vender aquele pequenino número de acções que possuo, quem manda ali também sou eu. Tendo em conta o tempo que perco a apoiá-la, a ver os jogos, a comentar os jogos, a irritar-me com os jogos, enfim, a estar presente, sou absolutamente senhor de me desgostar, de a abandonar e, até, de a enviar às urtigas quando não jogarem bem.
Confesso a minha desilusão. Enquanto a poeira do sul inglês não assentar, não estou interessado nesta equipa. Depois, logo se vê. O problema, no entanto, é o presente. Estamos perante um Benfica desalmado. Aquele Benfica a quem um dia escrevi um poema épico ficou em 1993. Depois disso, não o encontrei mais em lado algum. Desilude-me, esta equipa e não lhe reconheço qualquer traço de integridade, profissionalismo e honra. Exlcuindo, claro, il Maestro. Mas até esse parece condenado à natural jumentice de Fanã. Palavras para quê?