Não temos por hábito repetir assuntos em posts diferentes. Para tal, costumamos utilizar a caixa de comentários. Mas a verdade é que, neste caso, a substancial divergência opinativa forçou-me a criar um novo texto, sob pena de perder uma oportunidade francamente boa de ser alvo dos mais variados insultos por parte da mole benfiquista.
Dito isto, avancemos. Manuel Fernandes vai sair. Muito bem, que saia. Os benfiquistas insurgem-se. Mais uma vez, muito bem. Têm o direito de se insurgir. Resta saber contra quem. O alvo preferencial tem sido Luis Filipe Vieira. Percebo, mas discordo. O alvo preferencial deveria ser, primeiro que qualquer outro, Manuel Fernandes. Compreende-se a nobilíssima fé que os adeptos depositavam já no futuro comandante da equipa, que tão bem se exibiu na pré-época. Órfão de Simão, o Benfica precisaria muitíssimo de Manuel Fernandes para jogar como um verdadeiro candidato ao título. Mas Manuel Fernandes, ciente dessa possibilidade, preferiu ir-se embora. Para o Everton. Ele que, ainda na semana passada, afirmava querer ficar. Tal como Luis Filipe Vieira afirmava que ele ficaria. Segundo a Bola de hoje, desde que não fossem oferecidos os nove milhões de euros. Não li o jornal de então, nem as declarações por inteiro. Mas nem LFV é parvo, nem nós somos cegos. Manuel Fernandes não queria ficar no Benfica e o seu regresso deveu-se certamente apenas a um daqueles acordos semelhantes ao de Simão. À primeira proposta de nove milhões de euros, veria a sua saída consumada. Quem não quer ficar, não faz cá falta, digo eu. Parece chavão porque é chavão. Mas diz muito sobre Manuel Fernandes e sobre a forma como certas e determinadas situações têm de ser geridas no universo futebolístico nacional.
Recordemos Miguel. Miguel saiu e saiu por um preço ridículo. O Benfica levou-o a tribunal e o Benfica perdeu em tribunal. Miguel não foi obrigado a pagar qualquer indemnização. Ou, se o foi, era irrisória. Os doze milhões exigidos pelo clube, nem vê-los. Chegava a ninharia paga pelo Valência. Tiago também quis sair e também saiu. Doze milhões de euros. Mais amendoins. Simão quis sair e só não saiu logo porque LFV conseguiu manietá-lo na perfeição. Mas era inevitável perdê-lo um dia. Era uma questão de tempo até Manuel Fernandes fazer exactamente o mesmo.
Interessante é a questão relacionada com os fundos de investimento. Será que o facto de GSI ter metade do passe de Manuel Fernandes implica que, caso o Benfica abdique do seu direito de preferência, essa mesma metade possa ser vendida ao Everton? E, no caso de assim ser, onde iria jogar o jogador? No Benfica ou no Everton? A julgar pelo que veio a público, onde fosse de sua vontade. E já todos percebemos qual é a vontade de Manuel Fernandes.
Quanto ao facto de LFV estar em férias, não me parece grave. Pelo contrário. Apesar de ser o director desportivo, a máquina pode - bons sinais dos tempos - mexer-se sozinha. E, como já foi adiantado pela SIC Notícias, o Presidente esteve em conversações com Manuel Fernandes desde que chegou a proposta do Everton. Não creio que alguém acredite sinceramente que, havendo qualquer proposta, Manuel Fernandes optasse por ficar no Benfica. Honestamente, já vi escaravelhos com maior ética profissional. O que é de espantar, dado o material de que é feita a bola que eles "chutam".
Não pretendo, de forma alguma, defender cegamente LFV e, por atacado, Fernando Santos. Fanã é culpado, mas a sua culpa remonta ao próprio facto de respirar. Nada há a fazer quanto à sua incompetência (podemos despedi-lo, claro, mas não me parece ser a melhor altura - opiniões...), característica que lhe é totalmente inata. Só assim se explica esta ridícula pré-época, recheada de poucos jogos e muitos jogadores. A utilização de Manuel Fernandes é compreensível e natural. Ainda que houvesse acordo, haveria uma possibilidade forte de Manuel Fernandes ficar, dada a inexistência de clubes dispostos a pagar nove milhões de euros pelo seu passe. Assim sendo, era importante utilizá-lo porque ele é bom. E, verdade seja dita, se não jogasse ele, jogava quem no lugar dele?
Venho em defesa do meu clube porque me parece ele - e, por conseguinte, nós - o mais massacrado em toda esta história. O Benfica joga hoje aquilo que os Gabriel Alves da paróquia classificam como "cartada decisiva". Não o nego. Mas não aceito que o nome do meu clube seja arrastado na lama por causa de alguém como Manuel Fernandes. Os grandes estão acima destas tricas. Já o escrevi sobre Simão. Se Manuel Fernandes não quer jogar no Benfica, o problema é dele. Será mais um pateta a correr pelos campos de Inglaterra, julgando que no Everton é que é bom porque lhe pagam um milhão de euros por época. Agora, inadmissível é a onda crítica que se gera por causa desta minudência. A memória dos adeptos dura o tempo de um fósforo aceso. É importante, por isso, relembrar-lhes que este Manuel Fernandes, em quem toda a gente já depositava todas as esperanças e mais algumas, é o mesmo que se comportou de forma absolutamente reprovável quando saiu para Inglaterra. Jogadores como ele, como Miguel, como outros que resolveram, a determinada altura, sair do clube, são homens que escolheram comportar-se como ratos. E o Benfica é um clube de gigantes.
Há que impedir que gentalha desta ponha em causa tudo o que somos. Não advogo as vitórias morais. Pretendo, no entanto, manter a espinha dorsal. Porque no Benfica, ao contrário do que acontece noutros clubes, não se defendem as cotoveladas e não é aceitável ganhar comprando árbitros e viciando resultados. Tal como não é aceitável manter Manuel Fernandes contrariado, não porque seja um traidor, mas porque um jogador que não compreende que o melhor para ele é este clube - o nosso clube - é um jogador que não compreende o que é essencial na vida. E é exactamente esta compreensão, aliada a uma incapacidade de ganhar a qualquer custo, de aceitar todas e quaisquer possibilidades de vitória, que fez de nós aquilo que somos hoje. E, não haja dúvida, hoje continuamos a ser um dos melhores - e maiores - clubes do Mundo. E o primeiro, primeiríssimo, de Portugal.
Importa mudar, sem dúvida. Mas para melhor. E o melhor, neste momento, é que Manuel Fernandes saia. Talvez não desportivamente. Mas o Benfica não é só - nunca o será! - um clube de futebol. Importa, acima de tudo, que o não esqueçamos.