Já o Churchill dizia, sobre a Democracia, que esta era a menos má das soluções políticas actuais. Apesar de acérrimo defensor da meritocracia, tenho consciência da sua extrema dificuldade de aplicação e, como tal, vejo-me forçado a concordar com o velho Winston. E, como exemplo ilustrativo, permito-me recorrer à Assembleia Geral Ordinária do Benfica, que teve lugar ontem, presumo eu que no Estádio da Luz.
Parece que, após a aprovação das contas, foi iniciada votação para atribuição de título de sócio honorário a Henrique Granadeiro. Ora, o porquê, ninguém sabe. Isto é, eu, pelo menos, não sei. O que eu sei é que é sempre de bom tom explicar por que razão é que se tenta atribuir tal "prémio" a uma figura que, numa situação normal, corresponderia ao sócio honorário típico do clube pertencente ao outro lado da 2ª Circular. O Benfica, clube de enorme massa adepta, não é um fã de misturas. Perdão, os sócios do Benfica, que compõem a tal massa adepta e que costumam estar presentes nestas AG's, não gostam das tais "misturadas espantosas". E a eleição de Henrique Granadeiro, típico administrador leonino, não caiu bem entre as hostes encarnadas. Confesso que percebo. E, até serem bem explicadas as razões desta felizmente chumbada atribuição, o Henrique deve resignar-se ao seu estatuto de adepto comum. Ou, se a sede for muita, pode contribuir para o pote dos trezentos mil que Vieira tanto apregoa. É esta a beleza do Benfica e, enfim, da democracia. Que, neste caso, até passou por méritocracia. Aos melhores o que estes lutaram por conseguir, mais que todos os outros. Será Granadeiro um deles? Não sei porquê, tenho dúvidas. Muitas e extensas dúvidas.
A nomeação, todavia, fez aquecer o ambiente e trouxe à colação uns certos e determinados senhores que resolveram insultar o presidente. Num regime totalitário, este género de, enfim, "manifestações" seria claramente repudiada, de forma explícita. Os ditos senhores seriam encaminhados para uns terrenos ali na zona da Polónia onde lhes seria dado um banhinho agradável e inesquecível.
Felizmente para o regime democrático, tal não é hoje possível. Haverá outras maneiras de os pôr na ordem, nomeadamente através da sua identificação e consequente expulsão do Benfica, bem como duma interdição de entrar no Estádio da Luz. Se isto fosse a
good old England, tal sucederia sem demora. Naturalmente, se isto fosse a
good old England, tal nem sequer teria acontecido.
Queixavam-se os senhores da necessidade de legalização das claques. Ora, a legalização das claques é um absoluto disparate porque, a meu ver, as claques nem sequer deveriam existir. Já sei que muitos escreverão tratados sobre a importância daquelas para os clubes de futebol, porque vão aos jogos e apoiam a equipa nos momentos mais difíceis (mentira vergonhosa e absurda, que eu já fui a vários jogos na Luz onde as claques, fruto da pobre exibição do Glorioso, estavam caladas que nem ratos) e
blá blá blá. As claques são movimentos compostos na sua maioria por delinquentes que não servem propósito absolutamente nenhum a não ser dar prejuízo às gasolineiras e, como tal, a sua existência deve ser totalmente proibida. Não sendo tal possível, mais por ausência de testículos dos dirigentes do que propriamente por qualquer argumento razoável, haverá que legalizá-las.
Porque, como se viu ontem, deixá-los à solta é permitir que se repitam, um dia, os casos do
very light e outros que já vimos acontecer e que, volta e meia, nos regressam à memória, fruto de mais uma brilhante intervenção desses senhores. Gente desta, que não respeita as instituições que serve, é o mais fiel retrato de ideais proto-totalitaristas, em que a obtenção de certos fins é conseguida através do recurso à força, ao insulto e à opressão dos órgãos democráticos livremente eleitos pelos respectivos associados e dos meios de comunicação.
Bem sei que este texto, excluindo algumas referências específicas, parece um daqueles panfletos inflamados da juventude pateta (ou, se preferirem, comunista, trotskista e disparates do género) do pós-25 de Abril. Sendo a minha índole completamente aversa a tais sentimentos e disposições do espírito social e político, quero apenas deixar um apelo à direcção para que ponha em prática tudo o que é sugerido neste post. A bem do futebol e, muito mais importante, do Sport Lisboa e Benfica, o Glorioso.
Tenho dito.