A Bola de ontem apresentou, em duas páginas opostas, dois textos totalmente distintos. O primeiro, à esquerda, é mordaz e voraz nessa mordacidade. Ataca com elegância, com classe e transmite uma fina ironia que o tempo jamais será capaz de obnubilar. Tem a coragem de quem nomeia o que ataca e o orgulho, inevitável, de pertencer a algo maior.
O segundo, à direita, passa um atestado de senilidade a quem o escreve. Fala em elogios assassinos, em ausência de subtileza - coisa que, aliás, o atestado tem de sobra - e de clarividência(!). Não diz nomes. Fala em maiorias, mas não as agrupa. E tem o cuidado de usar a terceira pessoa do plural, num "eles" escondido que justifica uma ironia de tal modo especial que deixaram de a fazer no século 19. Revela episódios a que só o dito assistiu e descreve realidades - certamente alternativas - em que se dispararam canhões, em que rebentaram diques e outros disparates do género. Diremos "interne-se"? Eu diria "despeça-se". Mas não sem, antes, fazer uns quantos reparos à quantidade absurda de verdades absolutas com que este "olhar do Norte" tentou cegar os poucos - muito poucos - que ainda vêem.
Jorge Olímpio Bento - porque aqui ninguém gosta muito dessa brava atitude de não chamar os bois pelos nomes - presta-se a escrever sobre o Benfica, apesar de nunca dizer que é sobre o Benfica que escreve. Ao que parece, e fazendo fé nas suas descrições um tudo-nada exageradas, o País exaltou o empate do Glorioso, ante o Milan, de tal forma que o jogo contra o Porto seria uma mera formalidade, da qual resultaria, consequentemente, uma inevitável vitória dos lisboetas. Claro que tudo isto é escrito de forma totalmente estapafúrdia, com o recurso a joguetes literários e a hiperbolizações que têm, no mínimo, o condão de faltar à verdade. Que é como quem diz, a ver se o Jorge aprende alguma coisa, que é mentira!
Os benfiquistas, na sua maioria (porque é sobre maiorias que o Jorge escreve), não acharam que o jogo contra o Porto seria "trigo limpo, farinha Amparo". Nada disso. Consideraram, todavia, que se o Benfica jogasse como jogou contra o Milan, o Porto teria muitas dificuldades. O que é diferente de "Seriam desfeitos sem dó nem piedade, pelo predador ressuscitado e esfaimado, tanto mais que vinham (...) do outro lado do Canal da Mancha, com as forças físicas e anímicas totalmente arruinadas".
Mas, não contente com este festival de disparates, JOB (lê-se yobb) continua. Ao que parece, "as maiorias são assim". Assim como, Jorge? "Não se conduzem pela lucidez e inteligência da razão, nem pelo rigor e primor da análise, nem muito menos pela fineza das emoções e comportamentos". Para os que conseguiram parar de rir, o que se pretende, muito sub-repticiamente, com esta elencagem, é fazer passar a mensagem de que as minorias, vulgo FC Porto e sus muchachos, possuem todo este rol de fantásticas qualidades. Aliás, basta olhar para o chefe da claque dos Super Dragões para atestar da sua "finesse". O próprio já se classificou como um intelectual, não sendo de espantar que recorra frequentemente à razão para formular elaboradíssimos raciocínios (por exemplo, como evitar que os outros membros do bando andem à tareia dentro de um avião em pleno vôo), complementados pela fineza de comportamento que a condução de um bando de energúmenos a gritar "Filhos da puta, SLB" demonstra. Gajo fino que é fino não passa sem dizer "Filhos da puta, SLB" pelo menos três vezes ao dia.
Mas atentemos na fineza presidencial (para que as classes baixas não se exaltem em demasia), que pode, também ela, ser atestada pela qualidade dos seus relacionamentos. A pose de Carolina Salgado, na altura Primeira-Dama pontifícia, entre os Super Dragões, de dedo erguido para a mole benfiquista é demonstrativa de uma classe e de uma fineza à prova de bala. Não só dela, como também do respectivo, do qual um suposto amigo disse que, para ganhar, só não vendia a mãe e a filha (até porque vendida, a mulher, na altura, já teria sido). E o que dizer de Reinaldo Teles? A lucidez, a razão, o cogito em pessoa! Palmas, por favor.
Os benfiquistas, ao contrário da minoria portista, "estribam-se na força da imposição e na coragem do bando" (aliás, que corajosos foram os adeptos do FC Porto que agrediram os temerários benfiquistas na Av. dos Aliados, há três anos), "inebriam-se com o calor da manada, cegam-se com a quantidade, desprezam a qualidade das minorias e o valor da diferença. Em suma, fazem o que sabem, agem à bruta".
Calma, meus caros. Ainda não acabou. Por possuírmos todas estas qualidades, ficámos a "carpir lágrimas" e "a soprar no apito engasgado". Tudo isto porque nós não temos "humildade para aprender". Ignoramos o "exame de consciência e a autocrítica" (apesar de ter sido o próprio Jesualdo a dizer que os adeptos do Porto é que são mansinhos; não criticam; não fazem alarde) e a soberba "alimenta-lhes desejos de vingança". Não sabemos "admirar os valores dos outros" e só olhamos "para o próprio umbigo, como se ele fosse o centro e o apogeu do universo".
O texto, se não fosse tão triste, seria hilariante. Confesso que já não via alguém debitar tanto disparate junto num órgão de comunicação social há muito tempo. Mas esclareçamos um ponto (o único, aliás, que é passível de esclarecimento): a maioria dos benfiquistas admitiu que, pelo que fez na primeira parte, o FC Porto mereceu ganhar. Se isto é uma análise que prima pelo rigor e pelo primor, então eu vou deixar de fazer análises.
Não percebo como é que o jornal A Bola, ao abrigo da liberdade de imprensa, permite um texto destes nas suas páginas. Uma coisa são os exemplos da Leonor Pinhão e de MST. Por mais que eu deteste o segundo, reconheço-lhe a capacidade cronista. MST escreve sem ofender. Já JOB só ofende. Esta "crónica" é desprovida de tudo aquilo que deve existir num bom texto de cronista: bom senso; capacidade crítica; ausência de ataques pessoais. Ao contrário do que o Jorge pensa, uma crónica não existe para expressar qualquer opinião. Como membro desta maioria, sei bem que esta caracterização não é mais que uma mera generalização abusiva, correspondente, no máximo, a uma minoria dentro da maioria. Jorge não teve o cuidado de o acentuar, preferindo socorrer-se de um estilo evasivo, que, não nomeando, ataca pelas costas, para poder cobardemente fugir ao som do contra-ataque da outra parte.
Felizmente, Jorge Olímpio Bento é do FC Porto. Nós ("a manada") não quereríamos um benfiquista assim.