Costumo passear pelos sites dos três jornais desportivos logo de manhã. É uma rotina que me agrada e que cumpro, no caso d'A Bola, com moderado prazer e, nos casos do Jogo e do Record, com moderada repulsa. Sucedeu ter-me deparado, num destes dias, com um título que captou a minha atenção: "Cunha Leal responde a Rui Santos". Fiquei absorto. Primeiro, com a hipótese de alguém se dar ao trabalho de responder à versão portuguesa do Príncipe Vlad Tepes (atentai nas lapelas, senhores, atentai nas lapelas), que, com o seu
touch screen, vai empalando a inteligência dos ouvintes. Depois, com o facto de, perante a contestação de Cunha Leal, Rui Santos se ter dado ao trabalho - e à tortura - de replicar. Enfim, é do domínio público que qualquer blogger considera o seu blogue como um "cantinho" próprio, enfim, uma casa virtual. É certo que, de vez em quando, a casa virtual, como qualquer outra, precisa de umas limpezas. É então que o blogger escreve um texto sobre Rui Santos, geralmente lavando o chão com a personagem (o que explicaria, entre outras coisas, o bedum capilar). Espantosamente, Rui Santos adapta-se ao papel de esfregona sem queixumes. Desta vez, porém, o algodão enganou e Rui, o cotão humano, tinha mais qualquer coisa a dizer.
A coisa (não há outra possível designação para a prosápia do senhor) era a seguinte e explica-se simplesmente: Rui Santos resolveu "ir caçar gambozinos", que é como quem diz, tentar defender a honestidade da instituição FC Porto (o que é muito engraçado se tivermos em conta que, a determinada altura, Rui Santos escreve que é preciso "acabar com os esquemas" no futebol português). O"texto", que entitulou de "Cunhas desleais" (só o jogo de palavras é suficiente para me pôr a berrar pelo Gregório), começa com uma referência à tragédia de Heysel, prossegue com outra tragédia qualquer e, de repente, faz um clique (que eu, confesso, tive alguma dificuldade em compreender), relacionando o estado em que se encontrava o futebol de então com aquele em que se encontra o futebol, hoje em dia. Em Portugal, entenda-se. Adiante.
De acordo com o mesmo "texto", Cunha Leal terá sido o remédio utilizado para travar Valentim Loureiro, remédio esse que continha, segundo o cronista, efeitos secundários, já que não faz sentido um jurista recorrer ao seu "fundamentalismo clubístico" para manipular as "massas acríticas". Ou seja, o remédio deve curar, mas não muito, que depois estraga. Nesta altura, confesso, fiquei um pouco confuso. Como é que Cunha Leal, fundamentalista clubístico do Benfica, consegue manipular, recorrendo a tão vergonhosa descredibilização do FC Porto, os adeptos deste clube, rebanho cuja lã faz corar a indústria ovina de uma Nova Zelândia? Não sabemos. Mas sabe Rui Santos que as tais cunhas desleais (cicuta, o meu reino por cicuta!) não honram o futebol. O
crème de la crème, porém, chega-nos no fim da frase, na qual o Rui defende que não faz sentido prejudicar o FC Porto, para além daquilo que a instituição merece, porque a responsabilidade não é do FC Porto (embora os resultados operassem em seu favor, pequeno detalhe que o toucinho derretido impede a figura de processar), mas de Pinto da Costa.
Cunha Leal respondeu, recorrendo a uma arma que o seu oponente jamais possuirá: classe. Pura classe. Parecia uma receita: cinismo em doses industriais, ironia da boa e ataques pessoais q.b. Coisa a que Rui Santos, demasiado habituado a falar sem que o contrariem, não reagiu bem. Foi então que deixou sair o verdadeiro cronista e, num texto insultuoso, calunioso e pautado por acusações infundadas - ao contrário das que penderam sobre o pobre, pobre, pobre FC Porto - "respondeu" a Cunha Leal, distorcendo por completo uma série de afirmações feitas por responsáveis benfiquistas, por forma a corroborar algo que não passou de um baixo e reles ataque pessoal. Hum, baixo... reles... ataque pessoal... hum... onde é que eu já vi isto?
Era boa ideia que alguém explicasse a Rui Santos o teor de determinadas intervenções. Quando LFV disse que era melhor ter alguém na Liga do que contratar bons jogadores, estava a fazer um exercício de ironia, retratando aquilo que seria necessário para vencer no futebol português. E, pelos vistos, tendo em conta as revelações das escutas do Apito Dourado, LFV não estava tão enganado quanto isso. Mas pedir a alguém que nos assombra, mal abrimos o site do Record, com aquele olhar penetrante, que entenda isto, enfim, é pedir demasiado.
Faltava a
pièce de résistance: o Estoril - Benfica, que Cunha Leal deveria ter impedido de se ter realizado no Algarve, por ter sido determinante para a atribuição do título. Ora, eu não sei se Rui Santos estava cá por essa altura, mas determinante para a atribuição do título de campeão foi o Benfica - Sporting, não o Estoril - Benfica. Até porque o Benfica, ao contrário do pobrezinho, coitadinho FC Porto, não tentou, de forma alguma, corromper árbitros. Ou seja, ter-se realizado o jogo no Algarve foi bom, acima de tudo, para o Estoril, que arrecadou uma receita fora de série. Até ver, se bem me recordo, o Benfica ganhou justamente, o árbitro não foi absolutamente incompetente e o Estoril não se deixou perder. Por isso, quando Rui Santos vem falar em "moral", talvez fizesse melhor se enfiasse a viola no saco e fosse pregar os seus sermões de pacotilha para outro lado, porque moral é coisa que ele não tem, ao acusar um clube de um escândalo que não o foi para, indirectamente, defender outro de um escândalo que existiu, foi provado e deu azo a condenações.
Claro que o Rui, toldado pela magia de defender os Calimeros do Norte (já hoje Olímpio Bento disserta, n'A Bola, sobre o vergonhoso centralismo nacional e sobre o sofrimento anal - e mental - que é causado pela pertença a um Norte cada vez mais esquecido e ostracizado... carpideiras, por favor!), não vê nada disso. O FC Porto tentou corromper árbitros? Seja. Merece os seis insípidos pontos atribuídos aos que, como o Belenenses, inscreveram irregularmente um jogador. Pontos esses que, se bem se lembram, foram retirados ao clube do Restelo por denúncia de Rui Santos. Mas nada de avançarmos para a UEFA. Já viram a injustiça inerente a punir um clube que, enfim, só tentou corromper uns árbitros? Por favor, senhores, sejamos justos: tentar corromper árbitros é coisa de arraia miúda e os ditos responsáveis já foram castigados. Não vamos expô-los a um sofrimento que não merecem, pobrezinhos. Porque o que é bom para a nossa fama internacional é termos os corruptos na forma tentada a passearem-se pelos relvados da Europa. E ai do porco jurídico que disser coisa diferente e tentar aplicar essa coisa infâme que é a lei!
Como tão bem escreveu Oscar Wilde, "
a man who moralises is usually a hypocrite". E como tão bem disse Dias da Cunha, "é isto, o Sistema". Mai' nada!
Ps. Tentei arranjar uma fotografia do senhor com as tais lapelas, para mostrar aos leitores o quão parecido fica com o Conde Drácula. Mas foi impossível. Como sou incapaz de vos pedir que vejam o "Tempo Extra", dêem largas à imaginação.
Ps2. "
Artigo" de Rui Santos;
resposta de Cunha Leal e "réplica" imediata de Rui Santos.