Desde que terminaram os campeonatos nacionais que a imprensa e a FPF se uniram com o propósito de vender aos portugueses, emigrados ou não, o último grito em Equipas-maravilha. Um conjunto de jogadores dotado de qualidades que o mundo jamais vira até então, guiados por um fenómeno com brinquinho, sotaque e, entretanto, uma bola de ouro e por um brasileiro que compensava uma quase total acefalia técnica com religião e Paulo Coelho. Um grupo de tal modo destinado ao sucesso que nem o Presidente da República resistiu a uma recepção, prévia à mais que prevista vitória. Preenchidos os três éfes, rumaram à Suíça, convencidos, diante de tanta fartura cósmica, que só poderiam realizar uma grande campanha. A ajudar estava a memória da grande caminhada no Europeu de 2004, cuja glória final só os deuses, o campo inclinado, o árbitro ceguinho e o fantasma do Bella Gutmann impediram.
Para assegurar a grande conquista, todos os cuidados foram poucos. Afinal, qualquer cagadela de pombo, por mais silenciosa e inodora que fosse, seria suficiente para perturbar a equipa que estava destinada aos grandes feitos. Por isso, alojaram-se os craques num óptimo hotel, gradearam-se os acessos ao óptimo hotel e impediu-se a entrada de qualquer pessoa que não pertencesse à comitiva ou que não se chamasse Jorge Mendes. No primeiro jogo, diante da potência otomana, Portugal bailou de tal modo que, em Portugal, os portugueses sentiram a necessidade, premente e inadiável, de vir para a rua festejar a primeira das muitas conquistas dos meninos-guerreiros. No segundo encontro, ante a República Checa, os petizes deram cartas, de tal modo que, uma vez mais, Portugal saiu à rua para festejar a segunda das muitas conquistas dos meninos-guerreiros.
Qualificados, os meninos-guerreiros descansaram, com a presunção só permitida aos que estão destinados às verdadeiras conquistas. A gelada Helvécia deu dois na pá a Portugal B, mas nem uma derrota foi suficiente para esmorecer o povaréu, embriagado pela grandeza lusitana. Sabendo-se da qualificação da Alemanha, o País regozijou perante a possibilidade de provar à Europa que as vitórias portuguesas não eram somente um acaso, mas uma certeza do destino. A populaça saiu à rua, citando um dos filósofos do futebol moderno: "É ganhar, caralho!".
Chegado o momento, o mais que certamente vitorioso Portugal levou três na pá da Selecção germânica. Uma vez mais, os deuses, a nova relva, o campo inclinado, o árbitro comprado e o Abramovich tinham impedido os jogadores portugueses de chegarem ao Olimpo. Curiosamente, os que outrora festejaram as óbvias vitórias portuguesas, aproveitavam o momento para se deixarem possuir pela chama da maldade, caçando bruxas entre jogadores e elementos da equipa técnica. Ricardo, Paulo Ferreira, Scolari... nenhum deles é culpado, senhores. Culpados são, acima de tudo, aqueles que, festejando, aplaudindo e incitando, legitimaram, entre outras, a escolha de um guarda-redes que só serve para defender penalties. Esta selecção, que ainda anteontem consideravam vossa, foi construída por e para vós, à vossa imagem e semelhança. É uma selecção de "filhos e enteados", onde, como já atrás escrevi, não estão os melhores, mas os amigos. Uma Selecção tipicamente portuguesa, concerteza. Fosse outra a composição das equipas (técnica e jogadores) e o resultado talvez fosse o mesmo. Ou pior. Mas, então, a culpa seria apenas do adversário, por ser claramente superior. Que ontem não tinha de ser. Portugal, a Equipa-Maravilha, é que deixou que fosse.
Agora, senhores, é aguentar. Não sabem como? Perguntem ao Génio da Bola.
Ps. Quase me esquecia de avisar. Hoje é dia de post no
SLBenfica Planeta Portugal.
We're back to business, que é como quem diz, de volta ao Benfica.