
Confesso que estava a espera das lamurias. Do choradinho. Do - ligeiro - desespero. Um emailzinho que fosse onde estivesse expressa a necessidade de me ler. Um recadinho do genero: "Jas, onde estas? Sinto a tua falta. Quero ler-te. Ass. Lola, a melhor mao direita de Lisboa". Mas nada. Rien de rien. Os leitores deste blogue nao tem piedade de nos e, quais Judas Escariotes, abandonam os seus cronistas na primeira semana de ausencia.
Por isso, leitoras e leitores, resolvi atirar para o lixo o meu firme principio de nao escrever em teclados alemaes (ou seja, sem acentos portugueses). E verdade: estou numa apetitosa cidade universitaria no Sul da Alemanha (numa zona carinhosamente apelidada de "penico da Europa", ali entre a Franca, a Suica e a Austria) chamada Heidelberg. Alguns de vos ja terao, provavelmente, ouvido falar da dita. Quem ja ca veio tera, concerteza, chorado aquando da partida.
Heidelberg e daquelas cidades que ninguem quer abandonar. Tipo Lisboa, mas em ESTUPIDAMENTE-muito-epa-mas-ridiculamente-muito-mais-optimo-melhor-francamente-inacreditavelmente-BOM. Um individuo do sexo masculino que se passeie pela Hauptstraße (a rua principal) predispoe-se de imediato a largar quaisquer bens materiais que possua so para poder viver na macia calcada alema (da qual as pedras nao estao constantemente a saltar), rodeado por ninfas louras, altas, mamalhudas e - caracteristica essencial - lindas de morrer. Literalmente. Eu, pelo menos, ja fui quase atropelado por tres autocarros e hoje quase levei com uma bicicleta, sendo que me entristeceu muitissimo que tal nao tenha sucedido, ja que a dona da mesma era daquelas senhoras que nos fazem desejar ser atropelados por bicicletas. Realidade completamente diferente da portuguesa, onde o elevado numero de atropelamentos se deve a necessidade de caminhar com os olhos fechados. Ainda assim, nao julguem que Portugal perde em todos os quadrantes. Pelo contrario: a percentagem de mulheres bonitas em Heidelberg so e ultrapassada pela percentagem de estafermos por metro quadrado portugues.
Gostaria muito de publicar fotografias que ilustrassem o meu relato, mas as alemas ainda nao sao tao liberais quanto isso. De qualquer modo, se conseguir, tentarei fotografar a Steffi. Quem e a Steffi? Ah, quem e a Steffi! Essa e uma pergunta de catalogo: quem somos, para onde vamos, de onde viemos, quem e a Steffi. A menina e uma Betreuerin, isto e, uma especie de monitora. Sim, porque nao vim para Heidelberg cocar-me, ao contrario do leitor que vai lendo este texto calmamente recostado no sofa do seu hotel em Quarteira. Vim ca aprender a falar "boche". Bom, para cada turma de "bochistas" e designado um monitor. Os monitores sao estudantes da Universidade que nos indicam os lugares onde e possivel entrar em coma alcoolico por menos de dez euros (facilimo em Heidelberg, ja que cada caneca de um litro de cerveja custa tres euros). A Steffi e a Betreuerin duma das turmas do meu nivel e sobre a Steffi, para encerrar o tema, basta-me apenas dizer que foi concebida pelas maos de Deus-Pai, lui-meme. Para os que acreditam na patranha da imaculada concepcao, e facil de perceber. Aos outros, so vos posso dizer que so nao acreditam porque nunca viram a menina. O nivel de milagre e tal que ate um ou dois pelinhos louros que sobrevivem, ainda e sempre, a invasao da higiene moderna se tornam, nela, absolutamente encantadores. Nao vomite ainda, caro leitor. Eu sei que a ideia de um matagal denso e impenetravel pode repugna-lo, por estar habituado a ve-lo em fronhas como a da Amalia. Mas o bucinho louro da Steffi, acreditem-me, nao e um buco qualquer. Ha nele, e nao o digo levianamente, algo de sagrado. E tanto, mas tanto, de profano!
Mas Heidelberg e tambem outras coisas. Como, por exemplo, transportes que chegam a hora exacta. E que passam mesmo de cinco em cinco minutos (em minutos alemaes, nao em portugueses). Ruas nas quais nao pia uma ratazana. Separacao de lixo em todas as casas. Um rio - o Neckar - onde e possivel tomar banho. Zonas onde so circulam pessoas e bicicletas.
Kokosmakronen.
Defeitos? Claro que sim. Uma lingua horrorosa (uma das duas coisas decentes em Portugal, sendo a outra o Benfica). Mulheres com uma altura media de 1.80m, o que embaraca, e muito, o meu 1.75m. Namorados das ditas com dois por dois. Metros. Mau futebol. Filmes totalmente dobrados ("Mein Name ist Bönd, Jämes Bönd"). Inflexibilidade mental (aquilo a que nos chamamos "desenrascanco"). Pessimo futebol. Impostos demasiado altos. Estado Social "tipo Frances", mas com menos greves. E, creio, c´est tout.
Mas como isto nao e um blogue de viagens e eu nao tenho Cadilhe no apelido (embora adorasse te-lo, sobretudo aquando da leitura testamentaria), discutamos o Benfica. Tenho seguido as noticias pelos pasquins online e ja percebi que escolhi uma boa epoca para comprar um lugar cativo (a quantidade de "estrelas" e tal que devo conseguir boas vendas na candonga). Ja sei que nao jogamos nada contra o PSG, que o Sidnei enterrou duas vezes, que o Aimar ainda nao esta na melhor forma e que nao sei quem tambem so faz porcaria. E agradeco a Deus, essa versao masculina e tao menos interessante da Steffi, estar ausente do Pais. Que raio de tara maniaco-depressiva! Quando a epoca comecar, logo se ve. Por ora, facam como eu, gente: get a life!
E e tudo. Lamento a falta de acentos. Terao de fazer um esforco extra - ja que os textos grandes (em tamanho e em qualidade) poucos leem - para perceber onde e que ha acentos. E onde e que nao ha. Nao custa muito. E so pegar no farnel, na "famelga", levantar o rabo da toalha e ler o texto com cuidado. E, no fim, enviar um mailzito a Iliada a expressar uma imensa e enorme satisfacao pelo meu regresso. Achais possivel?
Ps. Para os "malucos" que acham que isto e so deboche, permitam-me desiludir-vos. Aqui trabalha-se e muito. Mas so de manha. A tarde, e so deboche. Mas e a tarde, senhores. Va, e a noite tambem. Mas tambem se trabalha. E muito. E nao e facil. Experimentem la passar um dia a dizer "Was bedeutet das ?", qualquer coisa como "O que e que esta merda quer dizer?". Uma coisa vos digo: nao e para meninos.