No dia 18 de Setembro deste ano, e depois da decisão do CD da Liga de não punir Rodriguez, um dos cronistas d'A Bola escreveu a seguinte frase: "No ponto - A Comissão Disciplinar da Liga agiu como se esperava, mantendo o castigo à cotovelada de Luisão e ignorando o choradinho por causa da
agressão de Rodríguez". Eu, um pouco farto deste género de raciocínios, escrevi-lhe o mail que transcrevo abaixo. Aguardo, agora, uma resposta. Que publicarei, se chegar. Veremos.
"Caro Alexandre (permita-me tratá-lo assim, sem esse adereço tão depreciativo que se tornou o "senhor", usado que tem sido, a torto e a direito, para apontar dedos que não dizem nomes),
Imagino que o dia de ontem não tenha sido fácil para a sua caixa de correio. O hate mail terá chegado em catadupa. Ou talvez não. Com o advento da blogosfera, é preferível insultar anonimamente em público, não dando hipótese de resposta ao insultado. Eu, que também tenho um blogue - e desportivo, ainda por cima - também o faço. Há alturas em que o insultado, de tão risível, não merece o direito de resposta. Confundi-lo-á esta postura, como jornalista que é. A mim, não me faz confusão nenhuma. Mas adiante. Sou um benfiquista ferrenho, mas vesti propositadamente a pele de um asceta desportivo apenas e só para poder escrever-lhe um e-mail decente. Ser-me-ia muito simples, tendo em conta a sua última coluna, chamar-lhe tudo e mais umas botas. Mas não é essa a minha postura, pelo menos não em discurso directo, ainda que virtual. Não sei qual é o seu clube, mas prefiro, muito francamente, imaginá-lo aclubístico. É um exercício que tento fazer com todos os jornalistas, para evitar pensar que quem deveria relatar factos passa a vida a dar opiniões. A Bola, diga-se, tem sido pródiga em dificultar-me a tarefa. É curioso que um jornal que ensinou tanta gente a ler esteja transformado num pasquim. Lamento, mas é essa a minha opinião. Não é de hoje e dificilmente mudará no futuro. Tem a ver com posturas assumidas (ou nem por isso) no passado. E tem a ver com um jornalismo de paróquia no qual continuamos insistentemente a insistir, se me permite a redundância. A qualidade dos jornalistas decresceu muitíssimo e pensar que alguém como Jorge Olimpío Bento dispõe de livre-trânsito para insultar quando e como entende os adeptos do Benfica - se não me acredita, procure em arquivo uma "crónica" do senhor (lá está) depois do Benfica - Milan de há um ano, que empatámos na Luz a uma bola - faz nascer em mim uma vontade profunda de rejeitar o vosso jornal, atitude que ainda não tomei em absoluto porque continuam a publicar os textos da melhor cronista desportiva portuguesa. A exímia Leonor Pinhão, bem entendido.
Entretanto, perdi-me de propósito. Queria perguntar-lhe por que razão nomeou uma atitude do Benfica como "choradinho". Uma agressão deixa de o ser quando a violência utilizada na mesma é reduzida? A UEFA parece pensar que não, já que puniu Scolari por ter socado o ar. Rodríguez não atingiu o ar. Atingiu Nuno Gomes, por trás. Depois de tê-lo provocado. Eu vi. Estava lá. E estes são factos que não deixam grande margem à interpretação. O que já é de estranhar, servindo-nos, por isso, um pitéu imaginativo, é a razão pela qual nenhuma das 26 câmaras da SportTv captou o lance de Rodríguez. Apesar de ter captado tão bem o de Luisão. Não lhe faz isto confusão? Não acha que "choradinho" é tentar punir o Presidente do Benfica por descer aos balneários e pedir desculpa, em nome do clube, pelo comportamento de um energúmeno? Se a justiça não faz, idealmente, qualquer destrinça, por que razão fez bem o CD da Liga em punir a agressão de Luisão e em não punir a agressão (assim mesmo, sem itálicos) de Rodríguez? Claro que a resposta é simples. A justiça não é igual para todos, passe o clichê. Por isso é que jogadores como Bruno Alves, por exemplo, continuam a massacrar - literal e impunemente - os adversários, apesar de ser Bynia o parte-pernas. Enfim, contas de outro rosário.
Queria só pôr-lhe as questões acima. Estou certo que para todas encontrará resposta. Mas, para que, numa próxima vez, não restem dúvidas, talvez seja melhor desenvolver a sua opinião no rectângulo e não no quadrado. Melhor para si, que talvez evite o hate mail e melhor para nós, que deixamos de comprar um jornal onde se fazem asserções sem lhes juntar as explicações. Bem sei que a sua coluna é de opinião. Mas a boa opinião tem sempre uma excelente justificação. Ainda que possamos discordar dela. Se ler João Pereira Coutinho, ao Sábado, na Única, perceberá do que falo. Se não gostar do género, fique-se pela Leonor, que dança na perfeição o tango das palavras.
Os meus melhores cumprimentos,"