Como falar de seriedade.
Debruço-me sobre o artigo de Miguel Sousa Tavares para logo me erguer em sonoro aplauso: há já trinta e sete segundos e nove centésimos que não ouvia uma aliás douta opinião sobre a crise em que estamos mergulhados. Mas, mais do que sobre a crise, Miguel versa sobre assunto intemporal: a seriedade. Poderiam ser feitas piadas sobre o facto de um adepto do FC Porto tratar sobre o tema, mas este blogue não desce tão baixo nos seus artigos. Para isso, temos a caixa de comentários.
Para Miguel, a questão é simples: o futebol inglês (
porquoi pas o italiano ou o espanhol é coisa que me escapa), bastião de especuladores pouco sérios, injectou enxurradas de dinheiro nos seus clubes, nomeadamente em três e no Arsenal, e vê-se agora em dificuldades para manter os seus "brinquedos de luxo, enquanto os seus castelos de cartas financeiros se desmoronam como merecem" (PCP!PCP! A Luta continua! A Luta continua!).
O tom proletário de Miguel é duma inocência pueril: as injecções financeiras são más porque geram concorrência desleal. Para os leigos em economia, "concorrência desleal" é assim como receber árbitros em casa, mas em versão ilegal. Mas que género de concorrência desleal? A resposta é simples e, como qualquer bom chocolate, deixa-se para o fim.
MST não acha sério que o Arsenal, "que esmagou o FC Porto", tenha jogado apenas com um jogador inglês no onze titular. Reparem que não se tratou nem do Manchester, nem do Chelsea, nem sequer do Liverpool. O problema está, para variar, não na fruta, mas nos vegetais. Nomeadamente, nas quatro "potatoes"(assim, à labrega!) que o FC Porto lá foi degustar há umas semanas. Tivesse sido o Benfica a prová-las e o Arsenal apareceria retratado como um exemplo do multiculturalismo desportivo mundial, o
melting pot dos clubes de futebol. Mas como arreou quatro no FC Porto, já não é sério. Jogou, vá, trinta ou quarenta vezes mais que o adversário; podia ter semeado um batatal; mas, como entrou em campo só com um inglês, não é sério. Obviamente.
Sério, sério, aliás, é aquele processo cujo debate instrutório se iniciava hoje em Gondomar (cidade que só perde em seriedade para Felgueiras), no qual o Presidente do FC Porto era co-arguido,
por suposto aliciamento (ou tentativa de, sabe-se lá) do árbitro para que este prejudicasse o Benfica no jogo ante o Nacional. Isto sim, é ser sério. E é por isso que nem uma linha mereceu ao Miguel. "Assim não vale...", remata ele, "...ou não devia valer." Curiosamente, Pinto da Costa, sujeito de seriedade a toda a prova apesar da suspensão de actividade por dois anos em virtude de uma condenação por tentativa de corrupção - além de co-arguido no tal processo - continua a sentar-se, em todos os jogos, na tribuna presidencial. Assim, Miguel, não deveria valer. Mas vale.
Já defender o decréscimo competitivo do melhor campeonato de futebol actual em nome de uma suposta justiça social e de um equilíbrio futebolístico europeu, que nunca existiu, nem - ressalve-se - existirá também vale, apesar de não ter nada a ver com seriedade. O nome, aliás, sempre foi outro: "chamava-se Rennie..."