A RFM noticiou que o Benfica proibiu os jornalistas da Lusa de entrarem no Estádio da Luz, ao som - tácito - de "Grândola, Vila Morena", como que recordando aos esquecidos que Salazar jaz morto, que a "censura" acabou e que é preciso proteger a liberdade de expressão. É uma coisa engraçada e ampla, essa da "liberdade de expressão", ainda que um tanto confusa. Eu, pelo menos, tenho algumas dificuldades em diferenciar "liberdade de expressão", "liberdade de invenção" e "liberdade de distorção". Nomeadamente, por alturas de Verão. Consequências do calor, concerteza.
Aguardo, por isso, sem expectativa as crónicas de amanhã. A classe dos jornalistas faz-me sempre relembrar uma brincadeirazinha de criança. Um de nós estendia o indicador e, com voz de gozo, ordenava: "toca no cigano". O toque despoletava a abertura total da mão e ao indicador juntavam-se os outros quatro. Há excepções, claro. Mas servem apenas para confirmar a regra de que um ataque a um jornalista é um ataque à classe, ao grupo, à mole. E a mole, enxofrada e ofendida, ergue o caderninho e o lapinhos e carrega sobre o ofensor, como o carneiro sobre o pasto. Não nos admiremos, por isso, se o Benfica, nos próximos meses, contratar mais meia-equipa, se o Quique se chatear com Rui Costa e Luis Filipe Vieira por causa do bigode do Chalana (ameaçando, naturalmente, bater com a porta) e se se descobrir que os administradores da SAD do Benfica receberam prémios, apesar do clube ter ficado em quarto lugar (a razão pela qual os receberam, como é óbvio, não interessa a ninguém... má-fé?! Senhores, por quem sois!).
Num país civilizado, a má-fé seria resolvida em tribunal. Os problemas, porém, são dois: primeiro, Portugal não cumpre o requisito civilizacional. Segundo, a decisão do tribunal seria sempre pressionada pelo fantasma de Abril passado. Nada contra. Excepto, talvez, a ideia de que o oposto de "censura" não é - nem nunca poderá ser - "liberdade total", detalhe que o plumitivo vem tendo sérias dificuldades em assimilar.
Claro que peroro sobre insignificâncias. Afinal, publicar uma notícia (ainda que a mesma não corresponda, em muitos casos, à realidade) sobre o Benfica é dar de comer a centenas de portugueses. Os que a investigaram, os que a redijiram, os que a publicaram e os que, amanhã, se degladiarão pelo fósforo que tentará, uma vez mais, incendiar a pilha sobre a qual jaz, amarrado, o seu principal meio de subsistência.
Infrutiferamente, avisamos já.