Sabem quem é Manuel Martins de Sá? Eu, por acaso, até sabia. Mas nunca prestei muita atenção. Alguém que escreve uma coluna intitulada "Sole Mio" num jornal desportivo está sujeito a uma sequência de desagradáveis remissões que em nada beneficiam o autor. Senão, vejamos: o termo, italiano, remete para futebol italiano, que, uma vez mais, remete para catennacio, que, finalmente, remeterá para tédio absolutamente insuportável. Assim mesmo, com advérbios e tudo.
Hoje, por acaso, calhei de botar olho na crónica do senhor. "Il campione d'inverno", palavras que compunham o título, remetiam para José Mourinho. E desde que abandonou o FC Porto (e depois de o ter comparado a Palermo), o Zé ganhou mais um fã deste lado da barricada. O que Manuel Martins de Sá, do alto do seu fato - certamente italiano - impecavelmente engomado, escreveu sobre Mourinho até fez sentido, embora não seja para aqui chamado.
Já a sua dissertação sobre o mérito cumpre analisar com cuidado. Como é do conhecimento geral, o mérito e o futebol não andam muitas vezes de mãos dadas. Muitos são os casos em que os vencedores não são os que batalharam arduamente pela vitória, mas aqueles que, como o Nacional, gostam de parquear o bus em frente à grande área. Uma espécie de catennacio, mas sem nível (ou não fosse pensado por um Chicharro). E essa ausência de mérito é, a meu ver, um dos encantos da bola. Confere-lhe imprevisibilidade. Emoção. Quiçá irracionalidade. A paixão - a verdadeira paixão - com que os adeptos vivem o seu clube é uma das poucas reacções genuínas - e humanas - que podemos encontrar na sociedade de hoje em dia. É egoísta, mas é-o honestamente. Sem adereços. Sem educações. Queremos ganhar e pronto. Como ideia genial que é, também o futebol - e a paixão futebolística - se explica em poucas linhas. E ninguém é menos respeitável por causa disso.
Pelo contrário. Quando um adepto de futebol, que vive o seu clube, que paga um bilhete a uma segunda-feira para, depois do trabalho, se deslocar a um estádio para assistir a um jogo do seu clube e, nesse jogo, se vê vergonhosamente roubado, o adepto, pessoa respeitável do dia-a-dia, reage. Não sei como é em Itália. Estou certo que um país que elege sucessivamente alguém como Berlusconi tenha costumes ainda mais brandos que os portugueses e esteja habituado a comer e calar, mesmo quando a roubalheira assume a forma de elefante num corredor de três metros.
Em Portugal, ou melhor, no Benfica, as pessoas diariamente respeitáveis continuam a sê-lo quando denunciam - e protestam - contra estas situações. E é por isso - não por estarem caladinhas, agindo como se nada fosse - que o são.
Por isso é que os exames de consciência sugeridos pelo Sr. Sá são para os que têm culpas no cartório. Para aqueles que são punidos com a perda de seis pontos e não recorrem. Para os que vão ao Brasil com os nomes do meio. E para os que organizam jantares de solidariedade para pessoas acusadas de corrupção. Não são para aqueles que têm razão e que pretendem defender-se de uma actuação dolosa e prejudicial.
Mais: no futebol, o mérito chama-se golo. E tem mais mérito quem marcar mais golos. O Benfica marcou um e, por isso, deveria ter ganho. O resto são balelas. Por isso, aconselhava Manuel de Sá a, antes de dissertar sobre o Benfica, pôr a mão na consciência e a perguntar-se que tipo de adepto aguenta a lentidão, a dureza e o tédio provocado por um qualquer jogo semanal na Liga Italiana? Tendo em conta o baixíssimo nível do espectáculo, só poderá ser, certamente, alguém irracional e masoquista. Esse mérito, ao menos, o Calcio terá: o de conseguir pôr gente a tragá-lo, apesar da sua fraquíssima qualidade, dos escândalos de corrupção e dos jogadores que esticam o bracinho, à alemã, para festejarem golos. Tudo gente respeitabilíssima, ressalve-se!
Ps.
Jesualdo Ferreira resolveu fazer umas perguntas sobre Pedro Henriques, socorrendo-se da retórica professoral a que já nos habituou. Confesso que concordei com todas, aproveitando o momento para desenvolver as ditas: seria possível sabermos a nota de Pedro Proença naquele Sporting - Porto do ano passado? E a do árbitro que não viu o sidekick de Bruno Alves ao rapaz do Leixões? E a de Pedro Henriques quando assinalou o mergulho de Quaresma? Já agora, era possível saber se quem nomeia os observadores sempre é um ex-braço-direito do tentáculo-direito de Pinto da Costa? Aguardamos desenvolvimentos.