Qualquer estudante de primeiro ano de Direito consegueria ver nesta atitude do Vieira uma fraude à lei. Não só à lei em termos dos estatutos
stricto sensu, mas também e principalmente à ética. Passo a explicar.
Vieira fez cair uma direcção eleita para cumprir um mandato até Outubro, única e exclusivamente, para que Veiga (por causa da sua "menoridade" em termos de anos de sócio) não possa concorrer às eleições. Será que há outro motivo? "Instabilidade", diz o Vilarinho e o comunicado enviado à CMVM. Mas como é que se pode fundamentar esta demissão em "instabilidade", quando depois, certamente a seguir ao jantar, a mesma personagem diz que esta atitude se enquadra "numa estratégia dele" para as eleições? Querem mais prova de um
animus fraudulento do que isto, dito pelo Presidente da Assembleia Geral, um dito "representante dos sócios"? Querem mais alguma prova de que tudo isto é um "golpe de Estado", destinado a garantir o tacho por mais 4 anos?
É nisto que é uma fraude (tal como defendem Bagão Félix e Paulo Olavo Cunha). De facto, instabilidade no Benfica, só conheço duas: a das nossas exibições e a da cabeça do nosso presidente. Para ser democrático é preciso também parecer democrático. E falta de democracia é algo que não posso admitir no meu clube. Não somos o Porto.
De facto, será que alguém me pode explicar que sentido faz umas eleições realizarem-se a 3 de Julho com o jogo de apresentação da nova época menos de 15 dias depois? É que – e mais uma vez apelo à ética (até porque, nesta parte não conheço os estatutos) – uma direcção demissionária, só deve realizar actos de gestão. Ou seja, fica tudo adiado para 4 de Julho. E estamos "só" a falar da contratação de um treinador, de novos jogadores e de eventuais vendas. É claro que nada disto irá acontecer: Jesus até já deve ter sido anunciado enquanto escrevo, e 3 ou 4 jogadores já foram contratados e um camião deles vendidos. E qual é a legitimidade para fazer tudo isto? Vilarinho, mais uma vez e certamente depois de mais uma garrafa, responde: "Vieira dá 9-1 a Veiga" e "irá com toda a certeza vencer as eleições". Mas... afinal como é que se pode ter tanta certeza dessa vitória, tanta estabilidade directiva, quando a mesma direcção se teve de demitir devido à... "instabilidade", pergunto eu.
Muitos dirão que "quem se queria apresentar em Outubro, também pode fazê-lo em Julho". Ou que "Veiga nunca teria coragem para se apresentar sozinho e que, a aparecer, seria sempre enquadrado dentro de uma das listas da oposição". Não sejamos hipócritas: é óbvio que uma coisa é começar a aparecer e a "divulgar-se" hoje para umas eleições daqui a 3 meses, outra é o movimento de oposição ter-se simplesmente acabado de formar e ter já de apresentar um projecto para vencer umas eleições daqui a menos de 1 mês.
De possíveis anticorpos que o Veiga tem ou não dentro do Benfica, não sei. É óbvio que os tem dentro do Benfica actual (o do Vieira, o que não é, certamente, o mesmo de dizer que os tem no Benfica enquanto Clube). Eu próprio, confesso, também tenho uma quantidade enorme de anticorpos em relação ao Veiga. Mas a isto sempre me podem vir dizer que, em primeiro lugar, quem o trouxe para dentro do Benfica, quem lhe deu visibilidade, foi o próprio Vieira e, coincidência ou não, foi com ele - e só com ele - que o Benfica conseguiu ser campeão. E este é um argumento fortíssimo que pode ser utilizado pelo Veiga (ou pelo movimento do qual faz parte e que se acabou de formar) e de que o Vieira tem medo. Com as letras todas. Até porque conheço inúmeros benfiquistas “a sério”, bem mais do que os 20 do Vilarinho que, fartos destas épocas de insucesso futebolístico (repito: futebolístico) até nem se importariam de votar numa alternativa. Quer ela seja Veiga ou não.
Agora não me venham defender o indefensável. Vieira fez uma jogada fraudulenta, é a lei que o diz.
Uma jogada destas só me lembro do Jardim que, após a nova lei de limitação dos cargos políticos, se demitiu para meses depois ser novamente eleito e, desse modo, ficar mais 4 anos com o "tacho". Agora percebam a minha revolta quando tenho de comparar as atitudes do Presidente do Benfica (qualquer que ele seja) com as do Jardim. Ao que isto chegou.