A legitimidade, em Portugal, é um conceito curioso. No estrangeiro, quando alguém, num cargo público, comete um erro, geralmente demite-se. Ou é demitido. Em Portugal, pelo contrário, até que tudo se prove, a pessoa mantém-se no cargo. E quando é o Primeiro-Ministro a dar o exemplo, não há quem resista a copiá-lo.
Hermínio Loureiro acaba, com grande pena de quem preza a transparência, a competência e a verdade no futebol português, de se demitir. Espanta-me que tenha aguentado tanto tempo. Ainda que não faça qualquer sentido, percebo as razões de Hermínio. Quando um juiz de 1ª Instância vê a sua sentença completamente revogada pelo de recurso, ninguém se demite. Claro que a justiça, apesar de ser cada vez menor, ainda goza de alguma credibilidade. Já o futebol português é, há anos, a palhaçada a que todos temos vindo a assistir. Pessoas como Hermínio Loureiro têm pouca paciência para palhaçadas, coisa que entidades - porque é duma entidade que se trata - como Gilberto Madaíl tragam às colheres diariamente. Nos dias de hoje, o vertebramento não é para quem quer, mas para quem pode.
Hermínio Loureiro podia. Ricardo Costa, a meu ver, também. As suas decisões são justas, ainda que estranhas: como é que uma sanção é aplicada abaixo do seu limite mínimo quando, aparentemente, a punição não prevê atenuantes foi uma coisa que não me lembro de ter aprendido no curso de Direito. Com a saída de Hermínio, sairá igualmente Costa, o terror do FC Porto. Foi Costa que conduziu o Apito Dourado na Liga, do qual saiu uma sanção por tentativa de corrupção da qual o Presidente do FC Porto
jamais recorreu ou desmentiu. Foi Costa que conduziu igualmente o processo contra Hulk e Sapunaru, agressores bárbaros / bons chefes de família provocados. E devia ter sido Costa a conduzir um processo contra o steward que mexeu nas câmaras do Estádio da Luz, no jogo da época passada.
Os portistas, claro, festejam. Não me admira. O seu presidente, sancionado por tentativa de corrupção e apanhado em escutas sórdidas, às quais todos tivemos acesso, não se demitiu. O seu presidente, acusado de receber dinheiro quando o clube anda(va) pelas ruas da amargura, não se demitiu. O seu presidente, dessecrando a memória e os versos de um grande poeta português, não se demitiu. Claro que a gentinha não apupa. O princípio é simples: se lhes derem títulos, ainda que alguns duvidosamente conquistados, eles votam / calam-se / assaltam impunemente bombas de gasolina. Não percebo porque é que ficam tão enxofrados quando faço notar a ausência de polegares oponíveis: quando se pensa como um primata, é provável que se seja confundido com um.
Com a mais que certa ascensão de Fernando Gomes à Liga, resta ao Benfica continuar a jogar como tem jogado esta época. Uma coisa é certa: se com Loureiro os obstáculos eram mil, com Gomes serão certamente um milhão. Afinal, uma vez administrador da SAD do FC Porto, para sempre administrador da SAD do FC Porto. Pelo menos, no currículo.