Houve tempos em que os senhores d'A Bola dirigiam um jornal. Tempos em que os jornalistas sabiam escrever. Tempos em que os lugares comuns não abundavam. Tempos em que os artigos, pela sua acuidade intelectual, pela sua precisão, pela sua, enfim, qualidade, valiam o tempo gasto a lê-los. Esses já não foram os meus tempos. Quando eu, aos três anos (vá, pronto, aos seis), comecei a folhear o jornal, já o Rui Santos lá tinha uma crónica (o que não significa necessariamente que a escrevesse, já que o processo de escrita é um pouco mais complexo que alinhavar palavras. Mas disperso-me). A partir daí, foi sempre a decrescer. Morreu Homero Serpa. Olímpio Bento ganhou destaque. Aquele senhor da "O Sole Mio", que, por escrever sobre Itália ou de Itália, deveria saber, melhor do ninguém, o que é a máfia, também começou a aparecer. E, enfim, chegou Miguel Sousa Tavares. Por oposição a todos estes intervenientes, houve, e há ainda, Leonor Pinhão, mas, como se diz por aí, não é uma andorinha, por muito bem que voe, que faz a Primavera. Quando apareceu o Zé Manel, A Bola, que se tinha tornado um negócio, voltou a ter um bocadinho de jornal. E quando Ricardo Araújo Pereira, uma das mentes mais brilhantes da cultura portuguesa contemporânea, anunciou a "Chama Imensa", julguei que A Bola tinha limpo a face. Certo: chegaram-nos, em simultâneo, Rui Moreira, Sílvio Cervan, o indescritível Eduardo Barroso e o razoavelmente bom Francisco José Viegas. Todos eles pequenos preços a pagar para poder ler RAP. Pelo meio, apareceu JDQ. Não só não escrevia mal, como tinha o dom da sanidade, coisa que falta aos poucos zbordinguistas que vão ficando. Mas RAP dava mais sabor ao sábado. RAP de férias eram fins-de-semana de menor qualidade. Porque ler RAP (e JDQ) dava a todos aqueles que prezam a honestidade e a transparência desportiva a capacidade de achar que pelo menos aquela aldeia iria resistir, se não sempre, pelo menos ainda, ao invasor. Não resistiu. Perante a birra de MST, A Bola agiu como se agia há umas décadas. Louve-se-lhes a falta de coragem. Em RAP, apesar das críticas dirigidas a MST, ninguém tocou, ou não fosse o Benfica o pão desta gente toda. Aliás, já que relembramos o Estado Novo, permitam-me usar aquela frase da qual sou o - até ver - orgulhoso autor: "inventar uma mentira sobre o Benfica é dar de comer a centenas de portugueses". Atiraram-se a JDQ, o que é curioso. Primeiro, porque consideraram - só pode - que a Ricardo Araújo Pereira faltava a coragem como a eles lhes falta a integridade (jornalística). Não faltou. Segundo, porque apesar das mentiras, incoerências e insultos do cronista do Fóculporto, quem se lixou foi o cronista do Sporting. Se isto não reflecte a realidade desportiva portuguesa, não sei, de facto, que outra situação reflectirá.
De qualquer modo, espero que a RAP (e JDQ) se siga Leonor Pinhão. Não minto: sou capaz de continuar a comprar A Bola (às quintas) porque a Leonor lá escreve, o que é um dos melhores elogios que lhe posso fazer. Mas tenho noção - e ela, creio, também - que são pérolas a porcos. O outrora jornal A Bola merece os Rui Moreiras, os Eduardo Barrosos, os Miguel Sousa Tavares e os Olímpio Bentos deste mundo. Porque, se a um jornal faz falta quem escreva bem (e pense ainda melhor), a papel impresso basta uma mão cheia de lugares comuns e outra de gente manhosa que os publicite.