Em dia de eleições, celebremos a retórica. A retórica é uma coisa bonita. Não foi por acaso que o senhor Aristóteles escreveu um livro sobre ela. Todas as coisas bonitas, como a retórica, mereciam que lhes dedicassem livros. O que é mais bonito na retórica é o facto de nunca perder a sua beleza, seja qual for o seu conteúdo. A retórica política, por exemplo, é rasteira, mesquinha e, não raras vezes, pejada de falácias. A falácia é uma espécie de Pinto da Costa da retórica. Retira-lhe muito valor, mas não é por isso que tem menos seguidores. Afinal, quem, além de mim, é que não apreciou as galinhas, as pistolas, as mansões e os bancos que popularam a retórica destas presidenciais que (felizmente) terminam hoje? Não há como não apreciar. Se há coisa de que sinto falta em Bruxelas é de uma boa retórica portuguesa bem passada e regada com porções alarves de demagogia.
Outra característica bonita da retórica é a facilidade com que permite centrar a atenção do ouvinte ou do leitor num tema completamente diferente daquele que deveria ser realmente abordado. Permitam-me uma demonstração. O ano passado, por esta altura, já estava instalado o caso do túnel. O caso do túnel, para quem não se lembra, explica-se assim: dois indivíduos do Fóculporto, quando provocados por senhores com coletes amarelos, resolveram agredi-los. O Fóculporto, quando confrontado com esta situação, justificou, através da arte de bem escrever que todo o jornalista desportivo português se pela por ler, tratar-se de uma reacção de bons chefes de família. Ontem, Jesus, depois de mais um massacre do Benfica, deu uma palmadinha a um jogador do Nacional. Saliente-se que, ao contrário de Hulk e Sapunaru, que espancaram com violência os stewards do Benfica, Jorge Jesus deu uma levíssima chapada de raspão ao jogador do Nacional. Estamos portanto, ao contrário do que acontecia com os outros dois, na presença de um perigoso agressor. Essa será, pelo menos, a retórica utilizada pelo Fóculporto de hoje em diante, até porque a alternativa seria dissertar sobre o penalty arrancado a ferros (mais um...) que permitiu ao mesmo Fóculporto vencer o Beira-Mar. E isso não interessa nem ao menino Jesus.