Tenho sempre vontade de voltar
nas vesperas de jogos com o Foculporto. Estou em crer que me impele mais o imperativo
etico (esquecam a filosofia) de contribuir para o combate a uma (alegada) corrupcao que
uma real vontade de escrever sobre futebol. Sera esta a diferenca entre o classico
e o derby. No derby, falamos sobretudo de bola. No classico, esse costuma ser o
tema menos frequente. Nao e por acaso. Basta uma passagem pelos principais
blogues portugueses para compreender que a natureza do classico e mais do foro criminal
que do desportivo. Nos, os benfiquistas, nao nos cansamos de sublinhar as
escutas e toda a gastronomia envolvente. Os adeptos do Foculporto nao se cansam
de nega-las. Perdao, erro. Negacao nunca houve realmente (excepto por parte de
um ou outro lunatico com surdez profunda). O que se le, normalmente, sao
retaliacoes baseadas em duvidosos conhecimentos de Historia (ah, o Estado Novo
ao servico do desporto!) e tentativas – bem sucedidas – de denegrir a
personalidade de terceiros que tiveram a audacia de, imagine-se, aplicar a lei.
Reconheco, compreendo e tolero a
irracionalidade, a que alguns chamam “paixao”, que rodeia os acontecimentos
futebolisticos. Costumo, alias, dizer que os jogos do Benfica sao os meus noventa
minutos de barbarie semanal, sem a qual, bem entendido, padeceria de uma
sociopatia ainda mais exacerbada. Ainda assim, e inevitavel a imposicao de
limites. Os meus estao na legalidade. Especifico: nao na legalidade do jogo per
se. Aceito ocasionalmente golos marcados com a mao, foras-de-jogo mal
assinalados, amarelos e vermelhos esquecidos, desde que a intencionalidade
fique de fora. Abomino a ideia de higienizar um jogo com “novas tecnologias”. A
falacia da “verdade desportiva” deve continuar a ser um exclusivo de desportos
de emocao contida e calculada como o tenis e o rugby.
Todavia, a intencionalidade, e
tudo aquilo que diga respeito a legalidade para alem do jogo, ultrapassa os
meus limites. O que se viu em Coimbra foi um exemplo. E muito complicado acreditar –
ainda que, para efeitos de um processo judicial, tal seja possivel – que tudo
aquilo tenha sido apenas fruto de absoluta incompetencia, nao so de quem apitou, mas
sobretudo de quem deixou apitar. E por isso que nao discuto com adeptos
portistas. Nao tanto para evitar descer ao seu nivel (sera que alguem sabe
realmente que nivel tem um protozoario?), mas para evitar entrar em territorios
que so nao sao inospitos porque la costumam habitar os adeptos do Foculporto.
Refiro-me a uma dimensao de legalidade paralela onde a prova se
refuta, ou pela ausencia de discussao, ou pelo ataque pessoal rasteiro. E
uma dimensao que pretence naturalmente ao dominio do fantastico, mas,
curiosamente, nao ao do insano. Os adeptos do Foculporto, ao contrario do que
gostam de fazer crer, sao perfeitamente imputaveis, no sentido em que sabem
distinguir o que e social e legalmente correcto e o que nao o e.
Como agir, portanto, com quem
aceita comportamentos alegadamente a margem da lei? Ja que quem a executa se eximiu, por
razoes exclusivamente formais, de faze-lo, impoe-se-nos, dentro de campo,
restabelecer os limites necessarios a pratica de um futebol desportivamente imperfeito,
mas legal e eticamente sao. Para isso, mais do que vencer, e fundamental
massacrar. Porque o que uma vitoria conquista, um massacre regenera.





