Não ousa a minha vã filosofia tentar compreender em que meandros obscuros se
move o futebol português. Creio ser necessário passar primeiro por um processo
de degradação moral contínua para conseguir ver a floresta onde agora só vislumbro
algumas árvores, caminho que prefiro não percorrer. Dito isto, não posso deixar
de expressar o meu significativo desapontamento com a decisão de hoje do
Conselho de Justiça, não tanto por ter sido este o órgão decisor, mas por ter
resultado a decisão de um recurso da direcção do Benfica. Um recurso que, a meu ver, e
tendo em conta as árvores que vislumbro, me parece absolutamente errado e que
tenho dificuldades sérias em compreender à luz de uma perspectiva moral e financeira. A meu ver, só duas decisões justificam este recurso:
continuar a copiar a dúbia política de empréstimos que se pratica noutro lado; ou encher bandulhos financeiros com comissões cobradas por compras de refugo sul-americano (com uma ou outra excepção) que elevou o
número de jogadores do Benfica sob contrato para perto de 60, se não erro.
A discussão em torno do jogador português, para o qual nos estamos cagando
há décadas, é completamente falsa. Nenhum dos grandes pretende utilizar os
jogadores que lá tem e que lá forma. Primeiro, porque não tem tempo, nem dinheiro,
para fazê-los crescer. São necessários resultados rápidos que não se compadecem
com processos de aprendizagem e amadurecimento, processos esses que a diferença abissal da
transição juniores-seniores requer. Não é por acaso que o único clube dito grande
que produziu gente com nível nos últimos anos é o que está numa situação
financeira aflitiva que o tem impedido de comprar passes de gente com
qualidade. A outra razão, suspeito eu, prende-se com as comissões que os
jogadores portugueses não darão a terceiros, por não ser preciso negociá-los, sobretudo aqueles
formados no próprio clube. Assim sendo, a única situação em que o jogador
português será favorecido em relação aos paquetes de sul-americanos que atracam
anualmente em Portugal será quando todos os clubes se encontrarem na penúria em
que se encontra o Sporting. É uma pena que tenhamos tão ingenuamente caído na armadilha, se é que não nos deixámos cair. De ora
em diante, quando quisermos queixar-nos de que os empréstimos vieram substituir
as mercearias, teremos sempre alguém que nos relembre que eles só continuam a
existir graças a nós. Lembremo-nos disto quando voltarmos a encher a boca para
falar de “verdade desportiva”. De nada nos serve invocar a dimensão moral se não passarmos de pacóvios moralistas.




