Dizemos “máfia” sem sabermos bem o que dizemos. Na investigação que conduziu ao maxi-processo de Palermo, um dos mais importantes julgamentos que teve lugar em Itália no contexto da luta anti-máfia, o juiz Giovanni Falcone, um herói pessoal, inquiria um “pentito” sobre a máfia siciliana e sobre os seus membros, os “mafiosi”. O “pentito” respondeu que a palavra “máfia” era uma fabricação da imprensa. O termo correcto para a organização criminosa siciliana era “Cosa Nostra”. O termo “mafiosi” também era inexistente. Existiam apenas “uomini di onore”. Homens de honra. É uma designação contraditória e incomodativa. A honra não costuma dar a mão a criminosos. Neste caso específico, “honra” adquire um sentido naturalmente equívoco. Honra para com os outros membros. Honra para com a causa. Acima de tudo, honra como sentimento de dever, de protecção dos seus. Homens de honra. Por oposição a homens honrados. Como Falcone e Borsellino, assassinados pouco tempo depois. Ou, a um nível bastante inferior, mas igualmente importante, Cesare Prandelli, actual selecionador italiano. Que fez Prandelli? Perante mais um escândalo no futebol italiano, que afectou, inclusivamente, a equipa nacional, Prandelli não se fez rogado: se achassem por bem, a Selecção italiana não iria ao Euro. Graça. Mercê. Honradez.
Em Portugal não se passou nada semelhante. Um ex-selecionador indicou que um presidente de um clube influencia (atenção ao tempo verbal) as escolhas de jogadores para a equipa nacional. Pura rotina. O País e, acima de tudo, os seus cidadãos, lutam contra o estrangulamento financeiro, enquanto a Selecção se qualifica em primeiro no ranking das que mais gastam no Europeu. O único primeiro lugar, diga-se, a que esta selecção pode aspirar, tendo em conta o triste espectáculo que se viu com a Turquia. Da Federação, nem uma palavra. Dos órgãos de soberania, apenas silêncio. Naturalmente: a democratização do futebol, apenas permitida pelos jogos da Selecção Nacional, serve propósitos óbvios numa altura de crise aguda. No final, haverá distribuição de prémios milionários por conquistas medíocres, como é, aliás, habitual. O único escândalo do futebol português é precisamente a ausência de escândalos. Corrijo: escândalos até podem existir. Culpados, nunca. É por isso que, quando me perguntam por que razão me recuso a apoiar a Selecção Nacional, a resposta é simples: francamente, já não distingo os homens honrados dos homens de honra.